Geraldine, o tambor da virada

“É favorável atravessar a grande água”.

E chove. Há dois dias, só chove. Daqui às fronteiras, continuamente. Troam os céus. Impiedosas nuvens cismam. Que seja. Apenas cala-se e bebe, inepto mundo térreo, porquanto chove e chove sem brecha. Vai Alegzandra, pressurizada e estupefata, alguns pés para o alto, íris no horizonte – “que imenso, que infinito, que minúsculo”! – antevendo arcobalenos e entendendo, no percurso, que lá e que então. E não haveria de ser por nada, um levante assim, arremessado, inocente, em plena revolução. Vê-se que passou a idade do espanto. Já nem recita os trêmulos pais-nossos a cada aterrissagem, mas canta. E espera, resignada, o absurdo da vez.

Iguazu. Alegzandra estanca diante do bicho. Pousados na inoportuna figura, dois olhos jazem atônitos. Despreparada Alegzandra, pobre. Grande e deslocada ocorrência, a do cassoar. Assombrosa existência contrariante. Febre nela, fisgadas por dentro. Culpa alheia. A consciência fustigada, pois que toda a América do Sul não bastará para aquele ser. E ela agora – impossível recuar – é quem possui inteiras sua dor e saudade, justo ela, sina de García Marquez em leitura premeditada, transtorno injetado insondável infantil importante.

Olhos falecidos. Uma boca seca também já não engole, somente encerra e morre. Faces ruborizam, fervem, adoecem, perecem, morrem. Mulher inconsistente se resume a arrepios no couro cabeludo – fios alaranjados, muitos, muitos, dançam elétricos, perdidos, se movem a esmo, embora não vente. Energia. Agonia. Tensão do queixo aos tornozelos. Adeus, Alegzandra. Não há mais cabelos, não há membros, não há nada. Nem o que há e nem o que houve. Nem espaço, nem tempo, sequer este momento aflito. Eis enfim o seu silêncio de ciclope. Morto o corpo, com um encontro assim previsto, de golpe, dá-se o sabido.

Se tiver sido honesta, Cortázar virá buscá-la com um gato e uma máquina fotográfica.

Glória. A verdade é que decidiu não mais ser Alegzandra, decidiu ser Geraldine. Tomou o antídoto. Foi imediato, toda a outra, até os cabelos mudaram de cor, agora negros e rebeldes, como o corpo do cassoar. Reflexos azulados, se expostos à luz rebatida de águas violentas. Azul inesperado, como no gogó do cassoar. O velho cassoar ensimesmado que conheceu em Iguazu. Tentou ser sua amiga e ele poupou-lhe a vida – excelente interação. Geraldine é melhor do que Alegzandra porque se relaciona mais francamente com a natureza árida do Oeste, aquele mundo outro. E está viva.

Cassoar? Causou-lhe um medo e uma compaixão indizíveis. Pois jamais ou nunca, em sua estreita vida, teve escolha o estranho cassoar. Ela, de uma vez por ela, sempre fez o que quis. Buscou terras distantes. Águas em profusão. E então este cassoar, que surpresa. Que tristeza. Co-miseráveis.

Pseudopobre. Semitriste. Admirado em amplo sentido, sempre. Mas não necessariamente amado. Tenta Alegzandra, com toda a força, perceba o cassoar que pode, veio também de uma ilha e veio por isso. I called you back to a place beside me / Love found us easily / And if that’s all we have / You will find we need nothing more…

Brega. Humana. Humaninha petulante, humaniza a personagem evitando artifícios antropomórficos, às custas do próprio sangue esvaziado. Veias azuladas. É fria – pensa, como pensasse o cassoar – fossem verdes a costurar, aí por dentro, frágil teia, ainda que frágil, ainda que levemente pulsante e talvez. Mas é fria.

“Vim do frio”, berra Alegzandra, morta (pura voz e espera). Olhar de uma outra ave. Já não saberá pensar ser saber cassoar. Mas fria não é. Sofre diariamente com o frio, resiste até as pernas pedirem para cair. “Desgraça, peso, formação esdrúxula que agora te vejo, céu cinza de ruína, coisa pronta a destroço. Te provo. Ninguém mais construído de resiliência do que o meu próprio nada. E digo, se for preciso, com palavras. O meu. O meu vai se salvar. Eu o amo” – delira.

Justa, curada, sabe-se Geraldine desaparelhada a respostas rápidas. Precisou de cinco minutos, por exemplo, para se acostumar com a faculdade da visão superior. Ainda pesa-lhe sobremaneira nos olhos a visão superior. Para não chorar a cada quarto de hora, Geraldine esconde a vista contra a mesa ou, na falta de uma, o chão. Braço direito dobrado protege seu rosto alvo e cria a bolha de ar. Assim, espaço reduzido, amostra controlada, detém as gotas saidoras – vem lapidando a técnica desde o ridículo e inexistente retorno de Saturno que, para ela, chegou aos dezenove. Sem ser chamado. “Saturno volta-e-meia é um boçal”.

As almas sugadas para o fundo das cataratas jamais entenderam a decisão de Alegzandra. Dar sua vida em troca da que lhe roubaram, aborígene alado. “Medo e compaixão, almas”? Encarem como pista e mais nada. Agora o cassoar fará o que quiser. “Lleno de manos cortadas y coronitas de flores, el mar de los juramentos resonaba, no sé dónde”. Lorca enforca, degola, esquarteja. Cortázar segura a onda.

Vida em bom estado é condição. Como se sabe, há muitas almas errando por estes lados. No Oeste, não. A força das cataratas atrai e suga tudo o que se distrai, sem piedade. Do fundo não se sabe. É para onde vão. Para o branco, para o tempo? Talvez para algum ponto. Alguma gosma espiral junto a qual… Alegzandra morreu por isso e somente Geraldine entenderá.

Geraldine nunca foi vaidosa e só aprova planetas com água. Toda a água do mundo é o seu objetivo primário. Não houve uma vez sequer que tenha jogado o I Ching (ela mesma joga, com moedas antigas e concentração, joga) e não tenha se deparado com um “é favorável atravessar a grande água”. E Geraldine se joga. Já perdeu as chaves de casa em diversas partes alagadas desta bola (se uma vez ficaram num cofre, em terra ianque, não vale para a estatística: foi durante a abdução). Ao voltar, são necessários os serviços do chaveiro. Caco Velho, amado. Toda catita, paga-lhe com a mesma canção.

E chove. O mundo térreo está em silêncio e apenas chove – delira. Geraldine comunga em miséria e alegrias de seu cassoar. Ele, que detesta coadjuvar. Detesta a rotina de ser descoberto, dia após dia, ser descoberto. Cansou-se já. Cansou-se de tudo um tanto, de espantos, comparações a ornitorrincos, reações adversas, benzeduras, gracejos, choros e tolas onomatopeias. E também cansou-se do medo de que exponham sua identidade mais mesquinha e pesada, cria do ágio de amar fingindo que acha que engana. Cansado desse nada demais está. Chove no cassoar. “Ver o mar, só usando a imaginação. E depois dessa chuva, depois desse mar, estás tu”. Blá blá blá. Hidehidehidehi. “Debo fingir que hay otros. Es mentira. Sólo tú eres. Tú, mi desventura”. A Exceção.

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